Renata Lima

        A invenção de um líquido numa tarde de verão de 1886 viria a se tornar parte da história do mundo e das civilizações. Nada foi mais visionário do que a invenção tão despretensiosa, e quase por acaso, do farmacêutico Dr. John Styth Pemberton do que o famoso xarope.
        Vocês já devem ter ouvido esta legendária história na qual este farmacêutico vendia o xarope em uma farmácia na cidade de Atlanta (EUA), chamada "Jacob's Pharmacy". O xarope era uma caramelada e colorida solução misturada com água para curar "todos os males da alma e do corpo", e era vendido a $5 cents o vidro. A Coca-Cola reconheceu o dia 08 de maio de 1886, como sendo o dia em que foi vendido o 1º vidro.
O Dr. John e seu guarda-livros Sr. Frank M. Robinson se associaram e criaram o logotipo da marca, patentearam o produto e o nome. Nascia assim a tão colecionada marca Coca-Cola, que foi impressa pela primeira vez em um fundo preto com letras vermelhas.Surgia também nessa época, através do visionário Dr. Pemberton, o primeiro slogan da Coca-Cola: "Drink Coca-Cola" - "Beba Coca-Cola".
        Nos anúncios divulgados nos jornais em 1886 aparecia a famosa frase: "Coca-Cola, Delicious! Refreshing! Exularating! Invigorating!" - "Coca-Cola, Deliciosa! Refrescante! Alegre! Tonificante!".
        Em 1891, o Dr. Pemberton enfrenta dificuldades financeiras e vende sua famosa e secreta fórmula para um outro farmacêutico, Asa Candler, que adquire assim os direitos para criar a "The Coca-Cola Company".
Já em 1891 a Coca-Cola fazia uma campanha forte, oferecendo prêmios e brindes, que hoje alcançam valores inacreditáveis. Os displays publicitários, posters, cartões, calendários, abatjours, canetas, etc., teriam comaçado a chegar para o público através das farmácias.
        Este produto refrescante que conseguiu atravessar todas as fronteiras de idiomas, religiões, culturas, etc., evoluiu em seu visual mantendo a tradição de quase dois séculos de sabor e qualidade.
E hoje, mais do que um refrigerante, Coca-Cola se transformou em um estilo de vida, tomar Coca-Cola se tornou tão natural que é raro e estranho ouvir alguém dizer que não gosta deste refrigerante.
        No Departamento de Pesquisa ao Colecionador da Universidade da Pensilvânia (Philadelphia) existem estudos sobre itens colecionados e a ligação emocional com o colecionador, e o item Coca-Cola aparece em vários níveis de estudo por ter se tornado um dos temas mais colecionados no mundo, mesmo aquele que não pode ser incluído na categoria de colecionador possui com certeza algum brinde relacionado à Coca-Cola.


        Devemos lembrar que a Coca-Cola já conseguia se difundir em diferentes pontos da terra antes do advento da televisão, fenômeno este que aconteceu graças a uma forte campanha publicitária feita através de cartazes e anúncios em revistas, esquema seguido até hoje. Convém lembrar que os padrões técnicos de publicidade não só no Brasil como no mundo são relativamente recentes, quando surgiram as primeiras campanhas publicitárias da Coca-Cola, elas estavam indiretamente fazendo uma nova escola de propaganda e marketing.
Durante as primeiras décadas deste século, o visual da publicidade da Coca-Cola evoluiu e houve uma tendência em mostrar pessoas saudáveis e felizes como modelo do consumidor da Coca-Cola.

         

        Este sabor e esta qualidade que atravessa mais de um século não depende somente de uma fórmula secreta e de uma bem sucedida campanha publicitária, mas também de outros fatores que dão um toque no sabor final do xarope do Dr. Pemberton, como:
Água: a água mesmo que tratada pela municipalidade passa por quatro estágios de purificação, até chegar ao estágio final onde não tem impurezas, microorganismos ou gostos.
Açúcar: o açúcar mesmo sendo da mais alta qualidade passa por um tratamento para eliminar qualquer cor ou sabor estranho.
Garrafas: depois de lavadas mecanicamente, as garrafas passam por uma rigorosa inspeção visual.
Tampinhas: as tampinhas também passam por um rigoroso controle, elas devem ser idênticas e perfeitas.
Gás carbônico: o gás carbônico usado no refrigerante passa por inúmeros teste que asseguram sua qualidade.
Concentrado: é uma mistura de vários ingredientes necessários à bebida.
Fórmula secreta: o xarope original é fabricado em Atlanta (EUA) e distribuído para quase 200 países; somente dois homens no mundo inteiro conhecem a verdadeira fórmula da Coca-Cola.
        Um dos motivos que fez da Coca-Cola um dos mais fascinantes temas a ser colecionados é a produção de itens de produtos lançados em sua campanha publicitária. Sabemos que o objetivo final é vender cada vez mais refrigerante, mas é indiscutível o carinho da Coca-Cola e o seu profissionalismo ao lançar suas campanhas promocionais ou até mesmo fabricar peças que levam a marca Coca-Cola.
        As décadas de 80 e 90 viram nascer nos EUA o chamado "Coca-Cola Country", que são centenas de miniaturas que reproduzem momentos do cotidiano onde a Coca-Cola está presente desde o século passado. Estas miniaturas chegaram ao Brasil através de uma loja localizada em um grande shopping em São Paulo.

      
RÉPLICAS DE CARRINHOS DA COCA-COLA

A coleção de miniatura de carrinhos da Coca-Cola, onde ,muitos podem ser considerados verdadeiras maquetes, ocupa hoje um lugar de destaque entre os colecionadores. O colecionismo deste tema se expandiu tanto no mundo inteiro que foram criadas associações, clubes, empresas e muitos outros empreendimentos visando o colecionismo.

A COCA-COLA PRESENTE NA HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES

        "Em todos os momentos que fazem a história você bebe Coca-Cola".
        Desde que os Jogos Olímpicos tiveram início há 100 anos pins e bótons eram usados pelos atletas como forma de troca entre seleções. No primeiro ano dos jogos já havia um bóton oficial da Coca-Cola, o que demonstrou o interesse da empresa em participar do evento. O ano de 1921 marca a era da publicidade nos Jogos Olímpicos.
        Em 1928, a Coca-Cola entra definitivamente nas Olimpíadas.
        Utilizando-se da estratégia de relacionar os acontecimentos importantes do mundo à Coca-Cola, a empresa fez durante a 2ª Guerra Mndial uma campanha publicitária voltada para união entre os povos, através da Coca-Cola, em línguas diferentes.

        Em 1945, o então presidente da Coca-Cola Robert Woodruff faz uma campanha promocional - para incentivar os soldados que haviam participado da guerra - em que um homem fardado podia comprar uma garrafa de Coca-Cola ao preço simbólico de $5 cents quando o preço regular era de $50 cents.
        No Brasil a publicidade da Coca-Cola ficava atenta aos acontecimentos e aos fatos que poderiam cada vez mais nacionalizar o consumo deste líquido, e nada mais nacional e popular do que o Carnaval e, assim a Coca-Cola abre alas no samba.
        A Coca-Cola promove em 1957 junto com o jornal "Última Hora" um concurso chamado "Tamborim de Ouro", a escola que apresentasse o melhor samba enredo tendo a Coca-Cola como tema seria a vencedora. Este concurso durou cinco anos e terminou para dar lugar a outras promoções da Coca-Cola junto ao Carnaval. Hoje um troféu deste que era um tamborim imitando a tampinha de Coca-Cola estilizada é disputado entre os leilões internacionais e pelos colecionadores brasileiros bem como as fotos originais e também os cartazes promocionais da época.

 
O COLECIONISMO DA COCA-COLA

        Os anos 40 foram cenário para o desembarque da Coca-Cola no Brasil, que chega simultaneamente em Recife e no Rio de Janeiro. Em Recife foram criadas pequenas fabriquetas apenas para servir aos soldados estrangeiros que ao tomar o líquido se sentiam em casa.
        A Coca-Cola juridicamente entra no Brasil no dia 15 de agosto de 1941. Em 02 de março de 1942 é instalada em São Cristóvão no Rio de Janeiro a primeira máquina de fabricação, assim como a primeira lavadeira de vasilhames. Em 18 de abril de 1942, ainda no Rio de Janeiro foram feitas as primeiras vendas, onde 1.843 caixas foram vendidas batendo o recorde para a época.
        Nesta época a denominação da fábrica era "Coca-Cola Refrescos S/A".
        A Coca-Cola Refrescos S/A que batia este recorde de vendas contava na ocasião com uma frota de apenas 20 caminhões, alguns movidos a gasogênio e um quadro de funcionários que não chegava a 200 pessoas.
        O jovem brasileiro dos anos 40 não era ligado em política; o cinema era a maior diversão e era também através das revistas que a publicidade da Coca-Cola encontrou seu maior veículo de propaganda. Em 1945, é aberta uma filial em São Paulo. E assim mesmo, era um momento em que o brasileiro não tinha hábito de tomar gelado, a Coca-Cola foi chegando de mansinho no Brasil e se expandindo para quase todo o território.
        Começa o sistema de franquias em 1945, que vem dando certo no Brasil até hoje. Através dele e já com o nome de Coca-Cola Indústria Ltda., concede a grupos de empresários locais o direito de fabricar, engarrafar e distribuir o refrigerante.
        Quando a Coca-Cola chegou no Brasil apenas uma indústria produzia o gás carbônico, esta indústria foi fornecedora até 1947 quando chega ao Brasil a Liquid Carbonic.

                   
O COLECIONISMO DA MARCA NO BRASIL

        Apesar da Coca-Cola ser amplamente comercializada, sua coleção não é muito difundida no Brasil. Em termos de vendagem do líquido, o Brasil ocupa o 3º lugar entre os 210 países consumidores, mas em termos de colecionismo os primeiros lugares estão com os Estados Unidos, Canadá, França e Alemanha. A posição do Brasil não está definida, mas grandes passos vêm sendo dados para um desenvolvimento natural do tema como, por exemplo, o surgimento desta revista e o destaque ao item Coca-Cola como fator importante de colecionismo.
        A Coca-Cola vem sendo colecionada praticamente há um século, mas no Brasil o início das coleções coincide com a entrada da empresa no País, em 1942.
        Praticamente os itens da Coca-Cola são os mesmos colecionados em todo o mundo, divergindo apenas em detalhes culturais que favorecem a criação de brindes, propagandas, slogans criados especificamente para um determinado país. No caso do Brasil os itens mais colecionados são: anúncios originais de época, garrafas, brindes, tampinhas, posters, engradados, réplicas de carrinhos e os famosos pins que a Coca-Cola lança sistematicamente.
        No colecionismo brasileiro existe uma peculiaridade entre a procura pelos colecionadores que são as letras originais das canções feitas por compositores famosos dedicadas a Coca-Cola. Em 1945 cria-se na Rádio Nacional um programa denominado "Um milhão de melodias", transmitido todas as 5ª feiras no horário nobre das 20:25 horas; foi neste programa que nasceram não só famosas canções, como famosos comerciais e seus maravilhosos jingles.
        Para a felicidade dos colecionadores brasileiros a publicidade da Coca-Cola não parava, os posters e os famosos slogans chegavam ao Brasil adaptados, é claro, a nossa realidade, sem esquecer nos outdoors impressos em litografia. Em 1952 um caminhãozinho Ford traz a Coca-Cola para ser vendida nas praias, pequenos cartazes são impressos para ajudar na venda, estes cartazes são procurados atualmente com avidez pelos colecionadores brasileiros, a réplica deste caminhãozinho foi feita por uma indústria de brinquedos em 1962 e custa hoje cerca de R$ 1.500,00.
        De 1945 até hoje mais de 77 fábricas foram instaladas no país e a produção de brindes e peças para os colecionadores crescem paralelo a estas fábricas.
        As réplicas dos caminhões usados na década de 40 para o transporte da Coca-Cola que vem se tornar para o fabricante de brinquedo um filão de ouro, são feitas até hoje no Brasil e principalmente nos EUA que ocupa o 1º lugar na venda do líquido e o 1º no colecionismo. Brinquedos também foram criados nas décadas de 50 e 60 levando a marca Coca-Cola e até hoje são feitos em série catalogados e colecionados.
        Indo mais adiante na história da Coca-Cola no Brasil, chegamos à época da Cuba Libre e do Rock'n Rol nos anos 50 e 60 - a Juventude transviada - desfrutava das maravilhas que viam do 1º Mundo entre elas a mais saborosa - a Coca-Cola - que misturada com rum burlava a vigilância do mais "velhos" nas festinhas, e nascia assim a Cuba Libre. Na vitrola tocava a música "Drink Rum and Coca-Cola" e que fez história.






        Nesta época a Coca-Cola incentivava não só o consumo no balcão, mas principalmente o consumo em casa e nascia o vasilhame do lar, sobre uma intensa campanha publicitária onde os brindes e promoções proliferavam, e para deleite do colecionador desta época enriquecia as coleções com novos itens lançados quase que semanalmente.
        Em 1970 chega ao Brasil a Coca-Cola em post mix ou a vulgar Coca-Cola de máquina onde ela é feita na hora e servida em copo. A instalação do primeiro post mix no Brasil foi na casa Rick do Leblon que pertencia a Ricardo Amaral.
        Dentre os "mistérios" emocionais que formam o perfil do colecionador brasileiro sistemático ou ocasional se destacam dois itens , por exemplo, as garrafinhas em miniaturas lançadas no mundo inteiro e a miniatura de engradado de madeira lançado no Brasil. Estes dois brindes compõem hoje um destaque em famosas coleções e também são colecionados por pessoas que nunca tiveram vontade de colecionar nada, mas não resistem às miniaturas que são normalmente encontradas, decorando salas de casas das mais variadas condições sócio-econômicas. Esta promoção era conhecida pelo slogan: "As tampinhas por garrafinhas".
           
PAIXÃO É ISSO AÍ!

        Por não termos uma formação cultural ligada ao colecionismo, no Brasil colecionadores profissionais como o Sr. Geraldo Augusto Gayoso, 38 anos, contam compouco apoio, incentivo ou divulgação para suas coleção, que pode ser considerada um verdadeiro museu.
        Este hobby começou quando ele tinha 12 anos de idade, e escreveu para várias fábicas, entre elas a Coca-Cola, que foi a única da qual obteve resposta.
        Geraldo é hoje o 4º maior colecionador da marca no mundo e o maior na América Latina.
Tão pitoresca quanto sua coleção são as histórias que giram em torno dela.
Além de possuir itens valiosos como a primeira garrafa usada para o xarope no século passado, Geraldo também mantém um contato direto com instituições oficiais ligadas ao tema coleção, como o Museu de Atlanta e o "The Coca-Cola Collector's Club".
        A sua coleção compõe ao todo 20.000 peças com a marca do refrigerante no Brasil e de quase 200 países.
Mantém uma correspondência intensa com colecionadores e fábricas de onde o líquido é vendido.
Disposto a difundir esta coleção no Brasil, Geraldo está à disposição de qualquer pessoas interessada no tema. Para isso poderão contactá-lo pelo telefone: (021) 2553-2935.

DICAS PARA O COLECIONADOR

A Coca-Cola no Brasil não possui um departamento específico ao colecionador, mas o telefone 0800 212121 - Atendimento ao Cliente, e o endereço:
Praia de Botafogo, 374
Rio de janeiro - RJ
Cep: 22250-040, pode ser usado para maiores informações.

Por ser o tema Coca-Cola de suma importância, a matéria terá continuação em várias edições. Na próxima edição serão abordados alguns itens, como: - A importância comercial da marca Coca-Cola no colecionismo; - Coca-Cola esporte e cultura; - Museu da Coca-Cola.

Esta matéria foi realizada tendo como fonte de pesquisa:
- a Assessoria de Imprensa da Coca-Cola (Rio de Janeiro);
- o colecionador Geraldo Augusto Gayoso.
- As ilustrações e as fotos foram cedidas pela Assessoria de Imprensa, pelo sr. Geraldo e pelo arquivo particular de Renata Lima.

Renata Lima é nossa colaboradora no tema "Coleções"



OBS: Renata Lima, colecionadora de Antigüidades Gráficas, publicou este artigo, originariamente na mídia impressa e com uma diagramação diferente, na revista Collector's Magazine nº 2, 1996, p. 26-32, que saiu apenas até o nº 6, sumindo depois de circulação. Collector's Magazine era uma revista extraordinária de multi-colecionismo.
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